Seu Geninho, cabelo branquinho, implicava um tanto com aquela conversa de exame. Todo fim de semana aparecia um neto ou um outro compadre e voltava a mesma conversa. Queriam porque queriam que ele fosse fazer uns exames em Belzonte. E ele inventando desculpa. Até que o neto mais querido, que já morava na capital, teve a idéia:
- Vô, olha só: o senhor tem de fazer esses exames logo de uma vez. Se não, daqui a pouco, o senhor nem vai mais poder tomar a sua pinguinha.
Seu Geninho nem respondeu. Afinal, ele sempre teve uma saúde nota dez, assim como o pai, o avô, o biso... tudo gente que viveu muito bem sem exame nem hospital. Mas a história da pinga abalou. Não atinava com a vida sem o gole. E seu Geninho acabou desembarcando em Belzonte, levado pelo filho. Ele entrou sozinho na sala do medico, que quis saber um pouco da saúde do novo paciente.
- Seu Geninho, o senhor está muito bem pra 65 anos.
E ele, meio seco:
- Eu disse que tenho 65 anos?
- Mas quanto anos o senhor tem afinal?
- Fiz 68 no setembro que passou.
- Nooossa! O senhor vai viver muito ainda. Quantos anos tinha seu pai quando morreu?
- Eu disse que meu pai morreu?
- Ah!... desculpe: quantos anos tem seu pai?
- O véio tem 88 anos.
- 88?!
O médico meio que duvidou. Mas seguiu com as perguntas:
- Vejo que é uma família de muita saúde, né? E seu avô, quantos anos ele tinha quando morreu?
- Eu disse que ele morreu?
E seu Geninho ficou esperando a pergunta óbvia.
- Desculpe. Quantos anos tem seu avô então?
- 107 anos.
- Verdade?
- Tá duvidando?
- Claro que não, seu Geninho.
- Pois fique sabendo que ele tá muito bem. Vai até casar.
- Calma aí! Assim também é demais. E não faz sentido. Por que um homem de 107 anos vai querer casar?
- Eu disse que ele quer casar?
- Não, na verdade não disse exatamente isso.
- E então?
Seu Geninho olha sério pro médico, antes de explicar, um pouquinho envergonhado.
- É que ele engravidou a moça.